Antes de existir um piloto, existe uma pessoa curiosa...
Curiosamente, a maioria dos pilotos que hoje voa pelas montanhas nunca planejou se tornar piloto de parapente. Tudo começou com uma simples curiosidade.

Existem duas formas de olhar para um parapente.
A primeira é a mais simples: levantar os olhos para o céu. Você vê uma vela colorida passando e pensa, quase sem perceber: “Que incrível…”
A segunda é olhar para quem está ali embaixo, pilotando. E quase ninguém imagina tudo o que aconteceu antes daquele voo acontecer.
Antes de existir um piloto, existiu alguém que se perguntou se aquilo também poderia ser para si. Alguém que sentiu curiosidade, insegurança, entusiasmo e receio ao mesmo tempo.
Como dizia Ayrton Senna:
“O capacete oculta sentimentos incompreensíveis.”
Acho que ele tinha razão, pois por trás de cada piloto existe uma história que quase nunca aparece nas fotografias, eu te garanto. Existem dúvidas, erros, aprendizados, horas de estudo, treinos repetidos, dias em que o vento não colaborou, conversas, apoio, persistência e pequenas conquistas que, pouco a pouco, tornam possível aquilo que, visto do chão, parece tão simples.
Foi enquanto revisava os tópicos para a palestra desta sexta-feira, no Encontro Nacional de Instrutores e Pilotos da Confederação Brasileira de Parapente, e que meus olhos voltavam o tempo todo para um presente que recebi dos alunos há poucos dias. Entre eles, havia uma revista, não é uma revista qualquer. Ela reúne histórias de pilotos formados pela Vento Norte, escritas por eles mesmos, contando como foi essa caminhada. Sabe o que ninguém escreveu nessa revista?
“Eu sempre soube que seria piloto de parapente.”
Muito pelo contrário. Quase todos os relatos começam de forma parecida.
“Nunca imaginei que um dia seria piloto de parapente.” / “Eu tinha medo.” / “Achava que era impossível.”
Um deles dizia algo que ficou na minha cabeça: “Descobri que o maior obstáculo não era aprender a voar. Era acreditar que esse esporte também poderia ser o meu.”
Confesso que passei alguns minutos refletindo sobre todos aqueles relatos. E fiquei pensando se, entre os leitores desta carta, existe alguém vivendo exatamente essa mesma dúvida. Ou, quem sabe, algum piloto que se lembrou de quando ela também fazia parte da sua história.
Mas existe um outro aspecto do nosso tempo que não aparece na revista. E é natural que não apareça, afinal, ela reúne relatos de quem já percorreu essa jornada e não daqueles que ainda olham do lado de fora.
Vivemos em uma época em que quase tudo acontece depressa. Compramos com um clique. Recebemos respostas em segundos. Assistimos a vídeos acelerados. Fazemos cursos cada vez mais curtos. Sem perceber, começamos a acreditar que o tempo deixou de ser parte do aprendizado.
Talvez seja por isso que tantas pessoas se surpreendam quando descobrem que aprender a voar exige teoria, treinamento, prática e um processo que leva, em média, cerca de doze meses para construir o conhecimento, a técnica e o julgamento necessários para voar com segurança e autonomia.
Não é raro ouvirmos frases como: “Nossa… é muito mais sério do que eu imaginava.”
Ou ainda: “Precisa de tudo isso?” / “Em dois meses eu não consigo concluir o curso?”
Aprender a voar nunca foi apenas sair do chão. Eu sei que repito isso com frequência. E quem convive comigo ou com o universo do voo livre provavelmente também já ouviu essa frase algumas vezes. Mas talvez ela mereça mesmo ser repetida.
Vivemos cercados por mensagens que sugerem que quase tudo pode ser conquistado rapidamente, com pouco esforço e em pouco tempo. Algumas coisas até podem. Mas aquilo que realmente transforma uma pessoa costuma seguir outro ritmo.
O voo livre é uma dessas coisas.
Cada aula, cada treinamento, cada ida à montanha, cada voo e cada decisão tomada ainda no solo ampliam um pouco mais o repertório do piloto. Essa é uma das maiores belezas do voo livre: quanto mais aprendemos, maior se torna o mundo que se abre diante de nós.
Voar não é vencer a natureza. É aprender a compreendê-la e a fazer parte dela. É descobrir, pouco a pouco, como tomar boas decisões e construir um voo cada vez mais seguro e significativo.
Isso também é um diamante na vida de cada piloto: voar sempre será respeitar o nosso tempo.
Ninguém precisa chegar sabendo. Ninguém precisa chegar imaginando que sempre seria um piloto de parapente. Ninguém precisa dominar tudo nas primeiras semanas. Cada etapa prepara a seguinte. Cada treino acrescenta um pouco mais de confiança. Cada conquista acontece no momento em que a anterior já foi compreendida. E tenha certeza, ninguém espera nada diferente disso no voo livre, a não ser o próprio piloto que pode querer pular etapas, mas logo também aprende a importância da humildade.
Quem começa a estudar o voo livre logo percebe que aprender a voar é apenas abrir a primeira porta e que a curiosidade não desaparece quando nasce um piloto. Ela cresce junto com ele, e em pouco tempo entende que está aprendendo muito mais sobre a vida do que imaginava e descobre que o céu sempre guarda alguma coisa nova para ensinar.
Quando olho para os relatos, para os rostos nas fotografias e para cada história escrita naquela revista, vejo pessoas que chegaram com perguntas. Descobriram que havia um caminho. Encontraram pessoas dispostas a percorrê-lo ao lado delas. E, passo a passo, transformaram a curiosidade em conhecimento, o conhecimento em confiança e a confiança na liberdade de voar.
Ser a ferramenta da transformação de alguém como qualquer um de nós, cercado de compromissos, preocupações e uma rotina que parece nunca terminar, em um piloto consciente, preparado e responsável. Alguém que encontra nas montanhas um espaço para contemplar a natureza, fazer parte dela, divertir-se, construir amizades e voltar para casa um pouco mais leve, mais confiante e mais preparado para enfrentar os desafios da vida, é claro que emociona, faz um pouco do nosso legado, e reforça:
Antes de existir um piloto…
…existe uma dúvida. Existe uma curiosidade. Existe alguém que olha para uma vela colorida cruzando o céu e se pergunta, quase sem perceber:
“Será que isso também pode ser para mim?”
E talvez seja justamente nesse instante que toda grande jornada começa.
Um grande abraço e uma excelente semana!

