O tempo e o vento
Depois que alguém aprende um pouco sobre astronomia, nunca mais olha para o céu noturno da mesma maneira. Depois que aprende sobre pássaros, uma caminhada no parque deixa de ser apenas uma caminhada. E depois que aprende a observar a atmosfera, o vento, as nuvens e as frentes frias, uma conversa sobre o tempo deixa de ser apenas uma conversa sobre o tempo.

O Tempo e o Vento é uma das maiores obras da literatura brasileira, escrita por Érico Verissimo.
Hoje vou tomar emprestado essa grande obra e título para contar sobre a aula de hoje gratuita. Você pode inclusive ler essa carta como um convite para escrever a sua própria história de Tempo e Vento.
Uma história rica em descobertas, aventuras, amizades, paisagens, conhecimento e contato com a natureza. Para que, ao chegar ao final da jornada, não perceba que alguns sonhos ficaram apenas na imaginação enquanto o tempo passava… e o vento levou.
Um dos trechos que gosto muito na obra O Tempo e o Vento, é a icônica frase dita pelo personagem Bolívar, e que exalta o amor à liberdade e às vastas paisagens dos pampas gaúchos, em contraponto aos limites da vida no povoado.
“Numa carta… dissera: ‘Ich berausche mich an der Weite des Horizontes’ — tomo bebedeiras de horizontes. Nunca em toda a sua vida vira céus mais largos nem sentira tamanha impressão de liberdade.”
Desde que reli ela, toda vez que estamos no pôr do sol e com o parapente deslizando pelo ar, ela me vem na mente.
Porque existe algo curioso que acontece quando uma pessoa aprende a enxergar alguma coisa. Ela nunca mais consegue vê-la da mesma forma. Isso acontece quando falamos de tempo também.
Depois que você aprende a observar o céu, o vento, as nuvens e as mudanças da atmosfera, uma simples conversa sobre o frio deixa de ser apenas uma conversa sobre o frio. Ela passa a contar uma história.
Vou dar um exemplo. A maioria das pessoas olha para o céu. Os pilotos aprendem a ler o céu. E, depois que isso acontece, fica difícil enxergar nuvens, vento e frio do mesmo jeito de antes.
A gente sabe que o tempo é uma espécie de idioma universal e que quase ninguém acorda pensando profundamente sobre temperatura, pressão atmosférica ou umidade. Mas basta duas pessoas ficarem sem assunto por três segundos e lá está ele:
— Nossa, que frio.
— Pois é, e parece que vai esfriar mais.
E a conversa está oficialmente inaugurada, inclusive entre os curitibanos.
Talvez porque o tempo tenha uma característica rara: ele afeta todo mundo ao mesmo tempo.
Política divide. Futebol divide. Religião divide. Mas uma frente fria chegando a Curitiba é um acontecimento coletivo. O motorista de aplicativo sente. O padeiro sente. O cachorro no passeio sente. O executivo de terno sente. O aluno chegando para a aula sente.
Em Curitiba, isso ganha contornos quase filosóficos. Em outras cidades, falar do tempo pode ser apenas preencher silêncio entre duas pessoas dentro de um elevador. Aqui, muitas vezes, é compartilhar uma experiência.
— Vamos para o Parque Barigui às 5 da manhã?
— Por que?
— Vai ter geada.
Pronto. Já existe um movimento e uma conexão.
E existe também algo de profundamente humano nisso. Durante milhares de anos, o clima não era apenas um assunto. Era uma questão de sobrevivência. Chuva significava colheita. Seca significava fome. Frio significava buscar abrigo. Não vou entrar nas estratégias de guerra em que o mal tempo era uma “arma”.
Entre os pilotos, carregamos esse antigo hábito de monitorar o céu e comentar sobre ele. Fazemos isso todas as noites, antes de dar boa noite para o celular e conversamos sobre o clima.
O mais engraçado é que frequentemente pessoas rotulam esse tipo de conversa como superficial. Mas ela cumpre uma função importante: é uma forma educada de dizer “eu reconheço sua presença”. Não é sobre o frio ou chuva. É sobre o encontro.
Quando alguém na fila da padaria diz:
— Que tempinho, hein?
Raramente está pedindo uma análise meteorológica. Está oferecendo uma pequena ponte para que dois desconhecidos compartilhem alguns segundos da mesma realidade.
E Curitiba oferece material abundante para isso. Afinal, poucas cidades recebem tantas frentes frias ao longo do ano.
Aqui, frente fria não é apenas assunto. É protagonista. Chega, derruba a temperatura, muda o céu, muda o vento, muda a rotina das pessoas e preenche o céu com nuvens únicas e belas.
Mas, entre pilotos, falar delas, do tempo, é falar de algo ainda mais importante: o vento.
Porque toda mudança no tempo deixa marcas na atmosfera. A frente fria é uma mudança. As nuvens são outras. O vento muda de direção, muda de intensidade, transporta massas de ar e anuncia transformações que os pilotos treinam o olhar para perceber e antecipar.
Por isso, aprender sobre o tempo é também aprender sobre o vento. É desenvolver a sensibilidade para entender de onde ele vem, para onde vai e o que está nos contando sobre as próximas horas.
Já estamos com os pés no inverno, época em que as frentes frias se tornam visitantes frequentes aqui no Sul, falaremos justamente sobre elas.
Dica: Venha hoje, terça-feira, 02 de junho, das 19h30 às 21h30, para nossa aula gratuita sobre frentes frias. Escolha: presencial ou online.
Pode mandar uma mensagem no Whatsapp, enviar o email e apertar o escondidinho interfone da escola para garantir seu cantinho por aqui.
Quem sabe tudo não comece com um simples “Mas que tempinho, hein?” ou melhor ainda “Que dia belíssimo, hein?” e termine abrindo seus olhos para uma conexão muito mais profunda com a atmosfera, com o vento e com a natureza que nos cerca e evitar que no final da trilha da vida, a sua obra não se transforme em “e o vento levou.”
O inverno esta chegando, e os Vento Nortenhos(as) sabem lhe usar!
